Uma das maiores idiotices em minha
opinião é o pensamento patriota. Parafraseando alguns modernos filósofos
digo: ''Eu sou um cidadão do mundo, brasileiro por acaso".
O
pensamento patriota é a raiz do etnocentrismo, que consiste em
acreditar que somos o melhor povo. Na verdade, não há povo melhor ou
pior, somente diferentes. Cada cultura tem sua particulariedade e
beleza, que devem ser respeitadas. Conhecer o diferente e respeitá-lo,
viver com a ambivalência, é uma das maiores virtudes que um homem pode
possuir. Nacionalidades são questões políticas, mas antes disso, todos
são seres humanos.
Já basta de guerras no mundo que surgiram por causa desse tal patriotismo...
Numa época em que os
norte-americanos viviam um grande desenvolvimento material e os seus
sentimentos nacionalistas faziam crer que grande parte desse progresso
era resultado de um esforço autóctone, o antropólogo Ralph Linton
escreveu um admirável texto sobre o começo do dia do homem americano:
O cidadão norte-americano
desperta num leito cons-truído segundo padrão originário do Oriente
Próximo, mas modificado na Europa Setentrional, antes de ser
transmitido à América. Sai debaixo de cobertas feitas de algodão cuja
planta se tornou doméstica na Índia; ou de linho ou de lã de carneiro,
um e outro domesticados no Oriente Próximo; ou de seda, cujo emprego foi
desco-berto na China. Todos estes materiais foram fiados e tecidos por
processos inventados no Oriente Próximo. Ao levantar da cama faz uso
dos "mocassins" que foram inventados pelos índios das florestas do
Leste dos Estados Unidos e entra no quarto de banho cujos aparelhos são
una mistura de invenções européias e norte-americanas, mias e outras
recentes. Tira o pijama, que é vestiário inventado na índia e lava-se
com sabão que foi inventado pelos antigos gauleses, faz a barba que é um
rito masoquístico que parece provir dos sumerianos ou do antigo Egito.
Voltando
ao quarto, o cidadão toma as roupas que estão sobre uma cadeira do
tipo europeu meridional e veste-se. As peças de seu vestuário têm a
forma das vestes de pele originais dos nômades das estepes asiáti-cas;
seus sapatos são feitos de peles curtidas por um processo inventado no
antigo Egito e cortadas segundo um padrão proveniente das civilizações
clássicas do Mediterrâneo; a tira de pano de cores vivas que amarra ao
pescoço é sobrevivência dos xales usados aos ombros pelos croatas do
século XVII. Antes de ir tomar o seu breakfast, ele olha a rua através
da vidraça feita de vidro
inventado
no Egito; e, se estiver chovendo, calça galo-chas de borracha
descoberta pelos índios da América Central e toma um guarda-chuva
inventado no sudoeste da Ásia. Seu chapéu é feito de feltro, material
inventado nas estepes asiáticas.
De
caminho para o breakfast, pára para comprar um jornal, pagando-o com
moedas, invenção da Líbia antiga. No restaurante, toda uma série de
elementos tomados de empréstimo o espera. O prato é feito de uma espécie
de cerâmica inventada na China. A faca é de aço, liga feita pela
primeira vez na Índia do Sul; o garfo é inventado na Itália medieval; a
colher vem de um original romano. Começa o seu breakfast com uma
laranja vinda do Mediterrâneo Oriental, melão da Pérsia, ou talvez uma
fatia de melancia africana. Toma café, planta abissínia, com nata e
açúcar. A domesticação do gado bovino e a idéia de aproveitar o seu
leite são originárias do Oriente Próximo, ao passo que o açúcar foi
feito pela primeira vez na Índia. Depois das frutas e do café vêm
waffles, os quais são bolinhos fabricados segundo uma técnica
escandinava, empregando como matéria-prima o trigo, que se tornou
planta doméstica na Ásia Menor. Rega-se com xarope de maple, inventado
pelos índios das florestas do Leste dos Estados Unidos. Como prato
adicional talvez coma o ovo de uma espécie de ave domesticada na
Indochina ou delgadas fatias de carne de um animal domesticado na Ásia
Oriental, salgada e defumada por um processo desenvolvido no Norte da
Europa.
Acabando de comer,
nosso amigo se recosta para fumar, hábito implantado pelos índios
americanos e que consome uma planta originária do Brasil; fuma
cachimbo, que procede dos índios da Virgínia, ou cigarro, proveniente do
México. Se for fumante valente, pode ser que fume mesmo um charuto,
transmitido à América do Norte pelas Antilhas, por intermédio da
Espanha. Enquanto fuma, lê notícias do dia, impressas em caracteres
inventados pelos antigos semitas, em material inventado na China e por
um processo inventado na Alemanha. Ao inteirar-se das narrativas dos
problemas estrangeiros, se for bom cidadão conservador, agradecerá a
uma divindade hebraica, numa língua indo-européia, o fato de ser cem por
cento americano.